Terminei de ler esse novo livro do Malcolm Gladwell, Outliers. Nele, o cara se propõe a investigar o que constrói o "sucesso", e defende a tese de que não é o talento individual que faz um fora de série, mas sim um conjunto de oportunidades e um contexto cultural favorável. Como isso aqui não é uma resenha do livro, não perca muito tempo agora concordando ou discordando dele. Apenas guarde esses dois conceitos: oportunidade e legado cultural. Essas coisas chamaram a minha atenção porque acho que elas são um bom parâmetro para se medir o valor de um planejador.
Primeiro, a oportunidade. Tenho a impressão que realizar um bom trabalho não está fácil pra ninguém. Hoje, isso tem menos a ver com clientes ou agências "melhores" ou "piores" e mais a ver com oportunidades que foram bem aproveitadas ou não. Um projeto que ninguém dá muita bola pode virar um grande trabalho. A "sorte" de ter um time inteiro bacana nos dois lados da mesa pode fazer a diferença para um marca, por um período de tempo específico.
Eu acredito que um planejador sensível a esses momentos favoráveis vale mais. Porque ele provavelmente vai gastar a sua energia envolvendo as outras pessoas, fazendo todo mundo enxergar aquela oportunidade. Assim, consegue fazer um trabalho mais bacana. Um exemplo disso, para mim, é o tipo de trabalho que costuma se dar bem no Young Lions de planejamento: se não fosse a sensibilidade do planejador e a sua vontade de fazer aquilo acontecer, aqueles trabalhos talvez nem existissem. Mas eles aconteceram, e isso fez muito bem para o cliente, para a agência, para o planejador -- que justamente por isso vale mais.
O outro parâmetro para medir o valor de um planejador tem a ver com o legado cultural -- ou, como ele se relaciona com a cultura da empresa em que trabalha e de seus clientes. Se a gente fica dizendo que as agências precisam mudar, que os clientes precisam mudar, que os processos precisam mudar, é sinal de que, em muitos casos, a cultura das agências e dos anunciantes mais atrapalha do que ajuda coisas bacanas a irem pra rua.
Agora, é muito fácil dizer que tá tudo errado e não fazer nada pra resolver. Ficar dizendo que "eles não entendem" não é solução. É preciso cutucar a ferida, fazer alguma coisa. E tem planejadores que fazem isso melhor do que outros: levantam a bunda da cadeira, buscam aliados pra fazer diferente, provocam, causam, zoam o barraco ao invés de simplesmente entregar a sua parte e deixar o pau comer. Gente assim vale mais.
E o talento de um planejador, não faz diferença? É claro que faz. Mas, usando a expressão do livro, pra fazer um outlier, é preciso bem mais do que um talento fora de série.
Achei legal o post. Só me confundi um pouco na parte do Legado Cultural, o que inicialmente achei que fosse o Repertório de um planejador, o que pra mim também é um ingrediente muito importante. Na minha leitura este comportamento de ir atrás das coisas e trabalhar em equipe seria mais Atitude.
Posted by: Alex Colaneri | 27-04-2009 at 17:01
Concordo com a citação oportunidade e legado cultural. Mas acho que o termo oportunidade poderia ser mais amplo. Oportunidade na minha opinião, vai muito além do sujeito simplesmente dar bola ou não para um projeto. Funcionário que não da bola para projeto por mais simples ou inexpressivo que ele o considere, é funcionário mal aproveitado. Não existe projeto sem valor. E o princípio básico de um planejador é não julgar. Não julgar um projeto, não julgar um comportamento de classe A, B ou C. Seu trabalho é analisar e fazer associações. Todo projeto é importante, seja para o indivíduo que o desenvolve, seja para o crescimento e reconhecimento de uma agência. E, é ai que a palavra oportunidade ganha muito mais valor e importância. Oportunidade também envolve aquele sujeito que quer mostrar seu valor e, principalmente em momentos como esse de crise, não tem sua chance. Oportunidade para aquela pessoa que quer mudar de área e encontra dificuldades. Isso não é um discurso anarquista, mas é um ponto de vista. Talvez um desabafo. Além disso, "planejadores que fazem isso melhor que outros" soa um tanto quanto contraditório. Fazer diferente, provocar, ir atrás, pesquisar, ler, informar-se, manter-se atualizado, fazer benchmark, estudar, discutir novas idéias, isso tudo pra mim é função de um planejador. Quem ousa e erra tem valor, quem se esconde e não se arrisca, tem medo, não tenta resolver os problemas e enfrentar as dificuldades, foge do crescimento pessoal e retrai a agência indiretamente. O valor de um planejador, é o valor da pessoa que está dentro dele. As pessoas são o principal ativo das empresas. Elas devem ser estimuladas, preparadas, instruídas da melhor forma possível para que o comportamento proativo comentado como diferencial, seja princípio de formação elementar, e dessa forma, a diferença entre um planejador e outro estará na capacidade criativa, na intuição, na análise pessoal, na contestação, ou seja, no complemento. Que é adquirido na divergência de opiniões e na troca de informações como nesta agora.
Posted by: Borghi | 27-04-2009 at 18:10
O "talento" parece ter deixado de ser a menina dos olhos dos recrutadores.
Posted by: Sylvio | 27-04-2009 at 19:00
O talento é apenas um dos elementos para o sucesso. Encontrar o ambiente perfeito, para sinergia de todos: empresa e cliente, principalmente, acaba sendo uma utopia. É mais fácil o Ronaldo fazer 3 no mesmo jogo. Aí que o talento do planejador sobressai diante da barreira. Comprar a briga pelo que se acredita está cada vez sendo menos um 'diferecial'.
Posted by: Paulo Peres | 27-04-2009 at 23:25
Desculpe-me meu caro mas seu texto por si próprio pode ser uma boa cutucada para os profissionais do ramo mas não tem absolutamente nada a ver com a tese que o livro defende...vamos dizer que você foi inspirado de uma maneira psicodélica pelo que estava ali escrito...a tese do livro é muito mais profunda na análise dos fatores de sucesso de uma pessoa, empresa ou nação do que um simples "levantar de bunda da cadeira"...de qualquer forma, cada um entende como quiser. abs, David
Posted by: David Pacce | 28-04-2009 at 02:09
Concordo com o David. Um dos pontos principais do livro é que ninguém "chega lá" sozinho. Se o contexto não for apropriado (criativo, inteligente, estimulante), não tem talento nem inquietação que ajude! E contexto é "given". Infelizmente... não dá para usar para medir o valor de ninguém, é pura sorte. Eta palavrinha que incomoda, mas que faz toda a diferença.
Posted by: Juliana | 28-04-2009 at 11:53
David,
Se não ficou claro antes, que fique aqui: esse post não tem a pretensão de ser uma resenha fiel ao que o livro propõe. É só uma das coisas que ele me fez pensar. Mas já que você tocou no assunto, vou pontuar o que eu achei do dito cujo (continua não sendo uma resenha, só um pitaco mesmo). Eu gostei do livro, bastante até. O que não faz dele um "bom" livro. Acho o cara meio mandrake com os argumentos, mostrando só o que ajuda a história dele, meio como o Michael Moore (que eu também gosto). As generalizações que ele faz são bastante ousadas (em especial as étnicas, que podem incomodar muita gente), mas eu pessoalmente acho interessante. Fora isso (quem leu sabe), foi "emocionante" ler o livro nas férias, a poucos dias de voltar voando Gol =D
Abs,
DDT
Posted by: DDT | 28-04-2009 at 15:42
É verdade, Juliana, um contexto negativo pode matar o talento. Mas, com todo respeito, discordo quando você diz que não dá medir o valor de ninguém. A gente pode até não resolver tudo nessa vida, mas a maneira como se encara o que é "given" é um dos jeitos mais eficientes de se mostrar valor -- ou ausência de virtude.
Posted by: DDT | 28-04-2009 at 15:49
Vale dar uma bizoiada no O Melhor do Mundo do Seth Godin. Os dois livros meio que se conversam, pois a teoria de Vão e Beco sem Saída do livro é uma "receita" de como desistir (beco sem saída) ou não (vão) de oportunidades. Muitas vezes como planejador dei murro em ponta de faca em supostas oportunidades (falsas) e tinham outras oportunidades (verdadeiras) quicando do meu lado. Bom ponto.
Posted by: Utymo Oliveira | 28-04-2009 at 17:28